Aquele trem maldito parecia engatinhar, o cenário exterior não se modificava na velocidade que ele queria. José estava cansado depois de mais um dia de trabalho. Não havia sido muito diferente dos outros dias de sua vida: Noé, seu chefe de cabelos brancos e barba grisalha havia lhe dado cinco relatórios de vendas para analisar, tarefa de pouca relevância e mesmo simples. O tempo se arrastou durante a manhã e a tarde. Almoçou sozinho, já era costume. O que havia de diferente neste dia, ele se perguntava. Alguma coisa, sim, era quase tocável, quase sólido. Algo de diferente. José olhou para sua pasta preta sobre suas pernas fechadas, enquanto o infindável "chuc-chuc-chuc" enchia seus ouvidos – era parte da trilha sonora de sua vida –, e a examinou com cuidado: os fechos estavam levemente rasgados, o couro era velho, mas ainda era uma boa pasta. Tentava, de maneira desesperada, lembrar de suas tarefas para esta semana. No escritório, não havia nada a fazer. Os relatórios haviam sido analisados e seus resumos foram entregues. Amanhã haveria outros, fim de mês era assim mesmo. Em casa... Talvez alguma coisa para ser consertada? Não, o encanador tinha passado por lá ainda na outra semana e trocado alguns canos. "Um senhor vazamento, agradeça por não ter tido infiltração nas paredes" disse o homem velho de bigode – um estereótipo, embora José não soubesse a palavra. Não eram tarefas em casa, nem no escritório. O que está diferente? Seus olhos procuravam por seu terno escuro: a gravata, levemente amassada depois de ter sido amarrada dia após dia por José, que não sabe nem mesmo amarrar seus cadarços; as calças, começando a desfiar próximo à barra; sua camisa branca, com um pequeno ponto vermelho, quase invisível, de molho de tomate, na manga; e o paletó, um pouco empoeirado – grisalho, sim, a poeira lhe emprestava um tom grisalho. Tudo conforme José esperava. O que estava errado? Seria alguma data? Esquecia-se com facilidade dos aniversários de seus colegas e amigos de infância. Rapidamente fez um esforço para se lembrar dos aniversariantes de julho. O trem parou, não era sua estação, como a viagem estava vagarosa! Ninguém aniversariava em julho. Ele próprio completaria mais um ano de existência em breve, mas agosto, não julho. Talvez fosse outro tipo de data. Comemoração de... Casamento? Não, José não era casado, que bobeira pensar nisto! Que outra data poderia ser? Abriu a pasta, as mãos um pouco trêmulas, e olhou o calendário em sua agenda. Não era feriado, nem dia santo. E José não se importava com dias santos. Talvez algo a sua volta. Especulou o vagão, esquadrinhou cada pessoa com suas lentes grossas. Parou até mesmo para limpar os óculos, mas observou o de sempre. Uma velha dormindo em um canto, a boca levemente aberta como se estivesse mantendo uma conversa em sonhos; um negro forte, carregando uma caixa marrom-clara (que estava sob suas pernas naquele particular momento). Uma mãe com uma criança ao seu lado – José imaginava se não deveria ser proibido para crianças tão pequenas andares em trens – não havia nada de particular na cena, nada de estranho ou mesmo diferente neste vagão. "Chuc-chuc-chuc", o trem se movia e a sensação não passava. Voltou a pensar que era algo que havia esquecido. Buscar as crianças na escola, as pessoas sempre se esquecem disto! Exceto que José não tinha filhos, que pensamento bobo. Mas, se não era disto que se esquecia, o que poderia ser? Talvez fosse, talvez José tivesse se esquecido então de buscar as crianças, se esquecido que tinha crianças, se esquecido completamente de sua vida! Então estaria feliz, pois saberia o que está diferente, é isto, é sua vida que está diferente. José sorriu. Olhou no relógio, o trem estava devagar. Seus olhos navegaram pelas janelas, que mostravam várias indústrias com suas longas e imponentes chaminés. José não tinha se esquecido de sua vida, ele era isto, um contador que trabalhava no setor de vendas de uma indústria de sapatos, e não tinha filhos. Seus trinta e muitos anos foram dedicados a sua carreira. José acreditava que um dia seria gerente, até mesmo vice-presidente! Mas perdeu esta fé há alguns meses, quando foi chamado para conversar por Noé. Aparentemente José tinha sido encarregado de uma projeção de vendas seis meses antes. Ele fazia este tipo de trabalho diariamente, não sabia dizer se era o caso, mas o papel estava com seu nome. Noé disse que, a partir daquela projeção, pessoas haviam sido contratadas e um grande estoque de sapatos produzido. Dinheiro tinha sido gasto. E a projeção, que afirmava um aumento considerável nas vendas, estava errada. Os cálculos – feitos sempre com precisão por José – estavam errados. Não era os dados, segundo Noé, era um ou outro erro nas fórmulas aplicadas que tinham causado uma mudança incrível no resultado. Afinal, Noé refez os cálculos e eles apontavam uma diminuição nas vendas. José ficou em silêncio enquanto Noé discursava sobre perdas e sobre a sua responsabilidade. Perderia o emprego, já procurava se conformar, quando Noé disse que "no futuro, tome mais cuidado". Foi apenas a bronca, mas no dia seguinte percebeu que tudo tinha mudado. Não fazia mais projeções. Analisava apenas relatórios de pouca relevância. José não seria mais gerente. E como poderia? Ele errou no relatório e causou a perda muito dinheiro. E estava feliz, pois não havia perdido o emprego. Aceitou afinal, não seria gerente nunca. Seria apenas o contador do departamento de vendas. O trem parou novamente, em breve José desceria, sua estação era a próxima. Mas e o que estava diferente? Abriu a pasta, procurou por seus papéis. Talvez tivesse errado novamente algum cálculo, poderia ser isso. Mas estavam todos corretos, José checou mais de uma vez para se certificar. Será que Noé iria reprimi-lo por outro erro? Reprimi-lo por um relatório errôneo, que desta vez causou perdas ainda maiores? O relatório poderia ser aquele de quarta-feira, das vendas na Inglaterra. O resultado tinha sido novamente positivo, mas deveria ter sido negativo. Sim, era necessário que a empresa abandonasse o mercado, José podia ver isso claramente agora. Entretanto, quando fez os cálculos, ele não levou em conta que alguns custos de importação da índia tinham mudado e que a competição era impossível. O resultado deveria ter sido desfavorável, como era burro! Agora a empresa investiu dinheiro em propaganda e produção para exportar para a Inglaterra, mas nenhum sapato iria ser vendido! Nenhum sapato foi vendido e todo o dinheiro foi perdido. Noé não iria somente reprimi-lo. José seria demitido. Mas o que estava diferente hoje? Esquecia de alguma coisa. Já havia sido demitido, é claro! Noé tinha falado com ele hoje pouco antes de entregar seu último relatório. O chefe disse que não acreditava na incompetência de seu funcionário, não imaginava por que não havia notado isto antes. Demiti-lo? Não, a empresa iria também publicar uma nota para os acionistas culpando José e explicando que sua demissão era fato, assim talvez as ações não caíssem muito. O departamento jurídico estava preparando um caso, disse um colega de outro departamento pouco antes de José sair pela última vez através daquelas portas de vidro gigantes. "Vão processá-lo por negligencia", um passo totalmente teatral, com a única intenção de culpar alguém. José seria o bode expiatório, o Judas a ser culpado ou o Cristo a pagar o pecado. Nunca mais encontraria outro emprego. Sua mulher o deixaria, ele podia ver isto claramente. Primeiro ela diria que estava ali para apoiá-lo, mas quando o orçamento sofresse os primeiro cortes e ele fosse obrigado a vender o carro para pagar as contas da escola, ela o deixaria. Diria a ele que embora o amasse perder o emprego mudou quem era e por isso não mais poderiam viver juntos. Mentiras que José aceitaria calado, e deixaria ela ir. Talvez fosse melhor assim mesmo, ela poderia encontrar alguém mais digno, um homem capaz de fazê-la feliz. As crianças ficariam com dó do pai, que talvez se entregasse à bebida. Sim, José passaria a beber tal qual um condenado às vésperas de sua execução. E por que não? Já estava perdido, já estava executado. Um dia qualquer chegaria à casa de sua mulher fedendo álcool, olhos vermelhos e palavras enroladas. Ela não deixaria que ele as levasse para seu passeio dominical, conforme o acordo de separação garantia. Ele, tomado de raiva, novamente colocaria tudo a perder, diria que era um ou outro mamífero indecente e ela, assustada, ligaria para a assistente social. José nunca mais veria seus filhos, ele sabe agora. O trem parou, uma chuva fina dava aquele começo de noite um ar agradável. A velha boquiaberta se levantou, com cara de sono. Todos se dirigiam à porta, ninguém notava o desgraçado parado ali, segurando uma pasta de couro preto batido. José preferia assim, preferia ser invisível. Perdera a família, a mulher. Seus pais se envergonhavam de seu fracasso na vida. Ainda o recebiam, emprestavam-lhe algum dinheiro, mas falavam aos amigos que preferiam que seu filho fosse para outro estado, se mudasse. Eram palavras desferidas em momentos de negação e indignação, mas palavras que, mesmo para os ouvidos bêbados de José, feriam. Levantou-se. O trem afinal havia parado, este era o ponto final. Um ponto final! Para que continuar, indagava José, para que? Já havia perdido tudo, toda a vida com que sonhara, tudo que conseguira. A fragilidade lhe apertava o coração. Um ponto final. Desceu, esperou que a cobra de metal atrás de si começasse sua fuga infindável. Virou. Por três minutos se relembrou dos sorrisos de seus filhos, do perfume de sua mulher, dos jantares na casa de seus pais. O outro trem se aproximava rapidamente. José teria de pular no exato momento da chegada, pois o maquinista iria frear para parar na estação. Ele se preparou. Iria se lançar no momento exato, talvez fosse atingido no ar. Uma morte gloriosa, ao menos um fim digno. Olhou para o trem que se aproximava. O barulho de metal quente atritando e o assobiar da morte lhe causaram um calafrio. Estava pronto. Vingar-se-ia de tudo com esta morte, de sua mulher, de seus filhos. Sujaria as mãos de Noé com seu sangue; se arrependeria para sempre ter demitido José. Porém, José não tinha mulher para sofrer por ele. Ou filhos. Noé não havia demitido José, pois a empresa não perdeu milhões na Inglaterra. Ora, que bobeira, o relatório da quarta-feira estava mais que correto. Ele sabia disso. Olhou para o relógio, o assoprar do trem lhe despenteou os cabelos. Não havia perdido nada. Nunca teve nada a perder. Melhor assim. Já era tarde, era melhor ir para a casa dormir, ou chegaria atrasado ao trabalho na manhã seguinte.
Thursday, July 12, 2007
Algo Diferente
Por
Bruno Brant
às
10:57 PM
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