Mais um cigarro...
... e a vida parace parar por um instante. É lindo, uma fotografia. Lá estou, as vezes sustentando o sorriso infeliz que faz de nós humanos. A habilidade de ignorar a realidade: é isto que nos faz humanos, não?
Sonhos existem para serem despedaços, pois não há alternativa. Conseguir -realizar- um, não é tarefa impossível. Mas neste instante ele deixa de ser. E nos continuamos. A vida não para, não há fim ou saída. Mas nós buscamos, com todo nosso coração um buraco, um trecho do espaço onde sejamos mais que somos.
Mas então, fadados a infelicidade? Talvez não. Se alguém tivesse a resposta, não seria pior? Ah, o grande mistério que nos motiva. Por que acontece, por que errar quando sabíamos o que era errado? Por que tudo parecia ser bom quando era, na realidade, ruim?
Continuamos firmemente buscando a solução para nossa existêcia. "Quem sou? Qual meu propósito?" Perguntas que impregnam nossas mentes, que nos torturam desde o momento que compreendemos que estamos vivos; Não surpreende que bebês choram quando são recebidos. A realidade é cruel, pois aqui, lutamos para viver.
E é aí que nos enganamos, não? Pois não importa o que aconteça, estamos vivos. A luta é apenas uma invenção nossa. Entenda, de uma só vez, não há nada maior que o universo, nada mais eterno que o mundo e nada mais insignificante que você. Enquanto a confirmação deste fato não traz paz, a aceitação nos faz crescer. Se queremos fazer diferença em nossa visita a este planeta, se queremos ser algo mais, sejamos algo mais nós mesmos. Lembre-se que a verdade é dobrável e por isso não haverá resposta. Quem somos? Ora, somos isto mesmo: uma mistura de vontade, dor, e uma força (ou seria a infame esperança, que nem mesmo Pandora libertou, por ser a maior das maldições?) que pode mover montanhas, desde que no fundo não seja aquilo que mais desejamos; Enquando acreditarmos que a montanha precisa ser movida, enquanto acharmos que precisamos fazer tal coisa acontecer, também acreditamos na impossibilidade disto - nosso terror auto-infligido. No momento que a montanha for menos importante, neste instante poderemos movê-la. Mas se ela não mais é importante, então nada mudará, porém seremos maiores.
Saudações para aqueles que entenderem este delírio.
Wednesday, January 18, 2006
Mais um cigarro...
Por
Bruno Brant
às
11:30 PM
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Assuntos:
Filosofia
Sunday, January 15, 2006
Última Mensagem
Homem chega em casa. Em sua mãos, uma pasta preta e alguns papéis. Sua face cansada está marcada por olheiras, ele não dorme há dias. A chave em sua mão faz barulho conforme ele destranca e adentra a casa, nota-se um relógio em seu braço esquerdo. A camisa amarelo-claro está amassada, a antes bela jaqueta preta de seu terno está com uma mancha escura no peito. O homem anda depressa, atira a gravata no sofá, derruba sua pasta ao lado de deu minibar e vai até uma pequena mesa onde se encontra seu telefone. Ele joga as chaves sobre a mesa e no mesmo movimento aperta o botão da secretária eletrônica. "Três novas mensagens" responde a máquina, com o monotom característico que nos infla de terror.
"Primeira nova mensagem." O homem prossegue até o banheiro, uma porta ao lado da mesinha, retira a jaqueta e puxa para fora da calça sua camisa. De dentro da jaqueta surge sua pequena nove milímetros, preta e brilhante. Nunca fora usada. Ele coloca com cuidado a arma, seu prêmio, reliquia, sobre a pia. "Olavo, é o Breno, meu velho. Cara, eu liguei pra saber como tu andava, tô sabendo de umas tretas fortes aí. Faz o que, uns dois meses que a gente não conversa, não é?". Olavo, olhando para o espelho, automaticamente move a cabeça para cima e para baixo, em sinal de concordância, e na seqüência abre a gaveta da pia e pega algumas aspirinas. Seus olhos estão tingidos de vermelho-sangue. "Então, a gente poderia sair sexta. Conversar um pouco, não sei meu. Olha, e os duzentos paus que tu tava me devendo, bem cara, eu to precisando, mas... ó, por ora deixa quieto. Me liga." Ele ingere as aspirinas à seco, vira-se para o vaso, abre a braguilha com uma mão e segura a camisa com a outra, arrebentando um botão.
"Segunda nova mensagem." Olavo vira pro espelho, dá alguma atenção para o botão, depois arranca a camisa arrebentando todos os outros, e a atira dentro do vaso. Olha para o espelho, volta semí-nú para a sala. "Olavo, é a mamãe. Meu filho, você precisa falar com alguém. O Cadu me ligou outro dia, disse que você não responde as ligações dele, que o pessoal do serviço falou que você tá mais calado que uma porta lubrificada e que não tem nem ao menos comido direito. Dizem que você se parece com um fantasma. Eu sei que você é muito inteligente meu filho e sei que esta situação é muito difícil mas voc--". Olavo pega uma garrafa de uísque de oito anos do seu minibar, pela metade. Serve uma dose, e olha para a janela. A máquina da obra da frente começa a funcionar de novo, seu creeek-creeek continúo infestando o ar, matando os vizinhos de ódio. O ar fica pesado com o som infernal. Por debaixo da porta entra uma pequena carta com carimbo vermelho. Olavo atira todo seu uísque sobre ela, sem tomar, e se levanta.
"Terceira nova mensagem." Olavo vai até a cozinha, o pequeno espaço separado da sala onde se encontra sua geladeira, e a abre. Um leite azedo está na primeira prateleira, um salame fatiado na segunda e o restante de uma pizza de segunda-feira na terceira. Olavo pega um pedaço da pizza e rásga-a com os dentes. "Olavo, é... sou eu. Ahn..." Seu olhos agora estão também manchados com lágrimas. Ele anda até o banheiro. "Não sei o que te dizer. Olha, tem umas coisas suas por aqui ainda, eu acho que você podia pegar elas devolta. O Paulo não vai estar aqui amanhã, se você quiser pode passar."Ele continua até o banheiro. Seus olhos buscam a gilete sobre a pia. Olavo levanta a gilete calmamente. Ele passa o creme de barbear sobre o rosto, alinha toda sua barba. Penteia o cabelo. joga a lâmina velha na lata do lixo e seca seu rosto, olhos agora mais vermelho do choro leve. "Sua mãe, ela me ligou. Por que não vai visitá-la? Ia ser bom pra você --".
Pega a jaqueta, suas coisas que estavam no banheiro, vai lentamente até sua cama, senta-se sobre ela, pega em seu criado mudo uma foto. Uma mulher está ao seu lado, a lateral da foto está queimada. Ele retira de seu bolso um zippo, acende e queima a foto que ele deixa, em chamas, sobre o criado mudo. Lentamente ele coloca a mão por debaixo da jaqueta, respira fundo. A outra mão sobe à seu peito e ele aperta forte... a segunda mão, num movimento rápido, vai até sua cabeça com a nove milímetros em punho, armada, e cola-a por debaixo de seu queixo. Ele olha para o fogo, pisca, e a secretária anuncia, "Fim das mensagens."
Por
Bruno Brant
às
10:36 PM
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